sexta-feira, 18 de setembro de 2015

EMPURRÃOZINHO



Certa vez, após escalar uma parede toda para descer em uma tirolesa, eu olhei pra baixo e tive medo. Aí perguntei o cara que estava comigo lá em cima se não tinha outra forma de descer senão por aquele fio de aço, naquela rapidez, com aquele frio na barriga. Então ele me explicou que a escalada foi eu quem decidiu fazer e não tinha como voltar atrás, mas que tudo estava preparado e seguro para que eu passasse por ali, e que eu só teria duas opções: ou eu encarava por mim mesma e pulava, ou ele teria que me dar um empurrãozinho. Como eu não me decidia, foi pela segunda opção.
Por vezes na vida temos medo de nos impulsionar de uma fase a outra, mesmo o coração mandando, sentimos inseguros. Nestes momentos “o cara lá de cima”, sem outra opção, nos dá aquele empurrãzinho que nos deixa um tempo sem chão, até que nos percebemos em solo firme novamente.

Desenho de Paulo Zerbato

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

PARA O SOLDADOR E A MOÇA DA PADARIA



A gente tem que deixar pra ser triste 
só quando não tiver mesmo jeito de não ser. 
De resto
 a gente tem mesmo é que ser feliz. 
Tem que sorrir toda vez que disser oi, 
e tem que dizer oi pra todo mundo que se vê todo dia na volta pra casa, 
seja com sorriso ou um aceno tímido de cabeça. 
Tem que voltar pra casa pensando nas coisas boas que tem 
e nas ruins que não tem. 
Tem que alegrar o dia de pessoas que tem dias mais difíceis 
que o da gente. 
Tem que perceber o vento que sopra o rosto 
e bagunça carinhosamente o cabelo, 
perceber o céu que hoje está tão bonito 
e, 
que sorte a minha, 
de frente à padaria às seis, hora do pão quentinho... 

Mas é assim, a gente tem que dar mais atenção 
pras coisas que acontecem todos os dias, 
pras pessoas “desconhecidas” 
que se vê todos os dias, no mesmo lugar. 

Aí, 
já está apaixonado 
por um cotidiano pacato e rotineiro, 
por saber que ele, 
com suas coisas e pessoas, 
nos espera contente e leve, no mesmo horário, 
só pra nos sorrir de volta, quando a gente passar, 
voltando pra casa.

Desenho de Kelly Santos

quarta-feira, 3 de junho de 2015

ARRUMAÇÃO

É preciso arrumar o guarda-roupa
E aquela gaveta de recados
E todos os demais guardados
Que se acumulam interiorizados
Em qualquer canto do quarto
Em qualquer tanto de nós

Ao tentar arrumar
Tudo vai parecer mais atrapalhado
Desembola do guarda-roupa
E se espalha por todo o quarto
Da garganta a gente arranca
E derrama pra todo lado
Quando a faxina é na alma
Exige ainda mais tempo e cuidado

Mas no final do árduo trabalho
de deixar tudo ajeitado
É que a gente se dá conta
Que a desordem causada
Pra arrumar a bagunça acumulada
Mesmo que doa um pouquinho
É o que nos abre o caminho
De uma vida mais amada
Pois a roupa mal guardada
Atrasa nossa saída de casa
Enquanto a vida desacertada
Atrasa nossa saída da casca

Desenho de Kelly Santos

terça-feira, 12 de maio de 2015

A LINHA

Eu ando na minha
Eu ando na linha
Mas a linha é bamba
A linha samba sob meus pés
E eu sigo a dança pra me equilibrar

Eu traço um futuro
E sigo o traço que faço
Mas o traço é curvo e pontilhado
E em cada curva turva
Há o risco do embaraço
Ou de se tornar um laço...

Eu ando na reta
Eu sigo a seta
E a placa que diz pra parar
Mas nem sempre a placa esta lá
Onde deveria estar
E sigo sem rumo
Até me reencontrar.
.
Desenho de Kelly Santos

domingo, 10 de maio de 2015

OS OLHOS DA CARA

Nas mostras de arte
Teatros e carnavais
Na cidade turística
frente ao espanto ou à contemplação
Ninguém mais vê com os olhos da cara

É sempre pela tela da câmera que se vê o ao vivo e a cores
E se não há registro, é como se não tivesse vivido
E não pudesse contar com exatidão

E como não se contentam
com a pouca resolução
dos olhos da máquina
estão sempre comprando
pelos olhos da cara
aparelhos eletrônicos
que melhores imitam
os olhos da cara.

Perdem a sensação
Do instante belo e sensível
Quem não se entrega o bastante
Na pura admiração
Para que a máquina corpo
Com todos os seus sentidos
Registre cada momento
com maior perfeição
E grave em seus arquivos:
Cabeça e coração.
.

Desenho de Kelly Santos

sábado, 28 de março de 2015

LEVE ASSIM

Meu bem
O seu transporte é esporte demais
O seu futuro é na sorte demais
E aquele som gutural
Daquela banda metal
Eu não gostei nem a pau

Mas quando você me tem
tudo isso o que é que tem?
Faço seu peito meu ninho
Recebo tanto carinho
E me sinto tão bem

É moreno,
Eu não curto seus hobbys
Não me agrada o seu job
Sei que não vamos durar...

Mas o seu sorriso
E seu olhar colorido
Se abrem tão bonitos
quando está comigo
que sinto não correr risco
em deixar rolar.

Desenho de Kelly Santos



domingo, 15 de março de 2015

ATO DE 15 DE MARÇO

Eu não quero saber de tanta corrupção!
Eu não quero saber de tanta corrupção!
Eu não quero saber de tanta corrupção.

Antes eu não sabia e era mais feliz
Mas nos deram poder de influenciar
Nos deram o poder de vigiar
Nos deram o poder de participar
Mas dá muito trabalho e eu não quero usar
Dá muito trabalho, e eu tenho mais o que fazer
E pra não sentir culpa pela minha não intervenção
Pra não ter que estudar o que é reforma política
Pra não ter que pegar no pé de cada parlamentar
Eu vou pedir a cabeça da presidente
Só pra simbolizar a minha insatisfação

Venha e tire a minha voz e meu poder
Venha e esconda de mim o que eu não quero ver
Intervenção militar já!